7. ARTES E ESPETCULOS 21.11.12

1. TELEVISO  S NO GOG
2. CINEMA  AMAR ...
3. CINEMA  NOVO EM FOLHA
4. LIVROS  BEBUM, SIM. MAS COM ESTILO
5. VEJA RECOMENDA
6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
7. J.R. GUZZO  TUDO EM JAVANS

1. TELEVISO  S NO GOG
Com um corpo de jurados ecltico e eficiente, The Voice Brasil consegue afinal emplacar no pas o reality show de calouros que tanto faz sucesso no mundo.
BRUNO MEIER

     O cantor sertanejo pisa no palco do estdio F do Projac, a central de produo da Rede Globo, com aquele ar compenetrado do aluno que senta na primeira fila da classe. Al, som. Testando, diz Daniel, repetidas vezes, ao microfone. O pop Lulu Santos, que j teve fama de temperamental no showbiz, aparece descontrado e sorridente em outro canto do cenrio, ensaiando sua parte no dueto que apresentaria com Erasmo Carlos dali a minutos, na primeira edio ao vivo de The Voice Brasil, no domingo 11. O sempre animado Carlinhos Brown, enquanto isso, aquece a plateia de 530 pessoas  incluindo figurantes que a emissora posiciona nas primeiras fileiras, para garantir gente bonita na tela  com palmas e um estranho pow, pow, pow (at falando ele  percussivo). nica mulher entre os jurados  ou tcnicos, como so chamados no programa, por analogia com os treinadores de futebol , a estrela do ax Claudia Leitte, em um tablete, checa sua conta no Instagram. Nos novos shows de auditrio que vm respondendo por algumas das maiores audincias da televiso mundial neste sculo (veja os quadros nas prximas pginas), a composio do jri  fundamental. Primeiro programa do gnero a conquistar audincia e repercusso efetivas no Brasil. The Voice foi feliz nessa composio. E os competidores, muitos deles com carreira profissional, tm mostrado bom nvel tcnico, o que inflama ainda mais a disputa pelo prmio de 500.000 reais e contrato com a Universal Music.
     O quarteto de jurados foi escolhido a partir de uma extensa lista de artistas que inclua Ivete Sangalo, Rogrio Flausino e Ed Motta.  um time variado tanto na msica quanto na personalidade. Lulu Santos  o mais entusiasmado, e Carlinhos Brown, compulsivamente tagarela, conquista simpatia com seu jeito maluco beleza. Daniel incorporou uma persona severa: Me fascina saber que sou um grozinho de areia num projeto que vai ajudar o Brasil a encontrar uma nova voz. O pas  carente de novos dolos, diz, sentencioso. E Claudia Leitte faz o gnero jurada fofa  embora o negue: Sou baiana, sou arretada. No tem fofura, no.
     O programa foi concebido pelo criador de reality shows John de Mol, da Endemol  a mesma produtora que castigou o mundo com o Big Brother. Com a adeso de cinco patrocinadores. The Voice trouxe 35 milhes de reais aos cofres da Globo e afugentou o ancestral marasmo das tardes de domingo na TV. Tentativas anteriores de popularizar no Brasil a mistura de concurso de calouros com reality show tiveram repercusso limitada. A melhor delas foi dolos, no SBT, em 2006, que divertia pela extravagncia dos jurados  o produtor Carlos Eduardo Miranda chegou a dormir no meio de uma apresentao. A verso brasileira do American Idol, exibida pela Record, no decolou. A prpria Globo fizera uma tentativa tbia antes, com o sisudo Fama, que teve quatro temporadas a partir de 2002. The Voice tem caractersticas que do carga dramtica  competio. Nas primeiras fases, os tcnicos ficam de costas para os concorrentes, e s viram a cadeira para ver a cara do cantor quando o aprovam. Na fase atual, 32 cantores sobreviventes competem em eliminatrias nas quais contam tanto a deciso dos jurados quanto a votao do pblico.
     A fim de compreenderem o formato que estavam trazendo ao Brasil, os diretores da Globo foram  Frana e  Holanda acompanhar verses locais de The Voice. Mesmo sem entender holands, sentimos a fora do modelo de fazer escolhas de costas, diz Carlos Magalhes, diretor-geral de The Voice Brasil. Para selecionar os concorrentes, a emissora analisou vdeos de 35.000 inscritos e depois fez audies em oito capitais. Trs bancas com quatro avaliadores eram montadas para apreciar (ou no) at quarenta cantantes por dia  e chegar assim aos 105 que subiram ao palco.
     Como todos os reality musicais, The Voice mobiliza tanto o f de msica quanto o torcedor, convocado a votar em seus favoritos. A verso brasileira s no traz a tenso que tantas vezes se v nos similares americanos, nos quais os jurados batem boca com mais vigor e frequncia. No se concebe aqui a cena recentemente exibida em The X Factor: um competidor recusado acusou a cantora Demi Lovato de usar um programa eletrnico de afinao de voz  e Simon Cowell, venenoso companheiro de jri de Demi, caiu na gargalhada. O clima entre os jurados brasileiros  camarada (Claudia Leitte conta, embevecida, que Lulu Santos certo dia apareceu de roupo no seu camarim para presente-la com um bolo). Certo vcio comum desses programas, porm, se repete na verso brasileira: a nota musical alta esticada at o insuportvel,  la Whitney Houston em I Will Always Love You. Magalhes diz que vrios adeptos da gritaria foram cortados j nas audies, antes de o programa ir ao ar. Mas Claudia Leitte no se ope a esses trinados hiperblicos. Gosto da firula que esses cantores fazem.  a raiz negra, o canto da lavadeira, diz. Pois , Claudia, ningum nega: voc  baiana e arretada. Mas fofa demais. 

AUDITRIO RENOVADO
Na televiso americana, a conjuno de show de calouros com reality show atrai milhes de espectadores. Nos fundamentos, os trs maiores programas do estilo so iguais. Mas cada um tem seu gingado prprio.

THE VOICE
Criado pelo holands John de Mol, em 2010
O gingado: h um expediente dramtico na primeira fase: os tcnicos, como so chamados os jurados, ficam de costas para os concorrentes, e s se viram se a voz que canta no palco desperta seu interesse
Jurados: Blake Shelton, Christina Aguilera, Cee Lo Green e Adam Levine
Audincia:  lder de audincia nos Estados Unidos, com 10,5 milhes de espectadores. As edies em outros pases tambm vo bem: The Voice ocupa o primeiro lugar na China e na Frana. A verso brasileira, exibida pela Rede Globo, alcana 17 pontos no painel nacional do Ibope, ou 45 em cada 100 casas com TV ligada no horrio.

THE FACTOR
Criado pelo ingls Simon Cowell, em 2004 
O gingado: competem no s cantores-solo, mas tambm grupos vocais (a boy band One Direction foi revelada na verso britnica do programa). Divididos em grupos, os candidatos so recebidos na casa dos jurados.  o momento luxo, na casa de campo de Cowell na Frana ou na manso de Britney Spears em Malibu, na costa californiana
Jurados: a temporada em curso tem Britney Spears e Demi Lovato. Mas o melhor  a acidez de Simon Cowell 
Audincia: com 7,5 milhes de espectadores em sua estreia americana, h dois meses, perde para The Voice, mas j tem temporada garantida em 2013

AMERICAN IDOL
Criado pelo ingls Simon Fuller, em 2002
O gingado: a fase inicial, quando se avaliam multides de amadores, tem a graa dos competidores esquisites. Na fase sria da disputa  vencida neste ano por Phillip Phillips, de 22 anos , os juzes atuam apenas como crticos, e o pblico vota nos seus favoritos
Jurados: nas primeiras nove temporadas, o mal-humorado Simon Cowell era a alma do programa. Depois de sua sada, Steven Tyler, do Aerosmith, e Jennifer Lopez seguraram o basto. Em 2013, entra na bancada a cantora Mariah Carey, pela bagatela de 18 milhes de dlares 
Audincia: sua final americana atinge 29 milhes de espectadores


2. CINEMA  AMAR ...
...s enxergar a perfeio. E  contando com essa lealdade dos fs que diretor e estdio no fazem nem uma forcinha para Amanhecer  Parte 2 ser um pouco melhor do que .

     Com mais de 120 milhes de livros vendidos e 2,5 bilhes de dlares acumulados na bilheteria em quatro longas, a srie Crepsculo , desde h muito tempo, um fato consumado: no h nada que se possa dizer sobre a qualidade dos livros de Stephenie Meyer, dos filmes produzidos a partir deles pelo estdio Summit ou da atuao dos protagonistas Robert Pattinson e Kristen Stewart que provoque nos fs alguma pausa. Ao contrrio, tudo o que se consegue  mago-los ou enfurec-los  tal  a natureza da paixo, que recobre seus objetos com a aparncia de uma perfeio que no admite discordncias. Mas tambm  da natureza das paixes arrefecer com o tempo. Dentro de cinco ou dez anos, assim, ser curioso ouvir esses mesmos fs sobre A Saga Crepsculo: Amanhecer  Parte 2 (The Twilight Saga: Breaking Dawn  Part 2, Estados Unidos, 2012).
     O eplogo da srie, desde quinta-feira em cartaz, s rivaliza em oportunidades para o constrangimento com Amanhecer  Parte 1. Ambos foram rodados simultaneamente, sob a direo de Bill Condon, o que explica a coerncia. O senso de rumo inexiste. Os dilogos so atrozes. Os figurinos, incompreensveis: h duas indgenas da Amaznia com saiotes que parecem herdados de uma produo bblica italiana dos anos 50, e um par de vampiros da Transilvnia com roupas de soldadinho de chumbo ainda mais falsas que seu sotaque. Os efeitos especiais assustam de verdade  em particular o medonho beb digital que representa Renesmee, a filha concebida pela jovem Bella com o vampiro Edward durante sua lua de mel: seus sorrisos virtuais, em vez de parecerem cheios de significado, ganham um qu de psictico em razo da inabilidade dos artistas. Os atores esto to embaraados que, numa cena em que Partinson e Taylor Lautner observam Bella, j tornada morta-viva, fortalecer seus laos com Renesmee  uma cena feita para comover, portanto , os dois esto com as mos nos bolsos. Ou seja, no sabem o que fazer com elas. E a grande sequncia de ao de Parte 2, aquela que faz o espectador comum sair de seu torpor  diga-se apenas que ela  um blefe.
     Note-se que no se discutiram aqui nem os mritos do enredo, nem os dos atores. Estes so os fatos consumados: com esses mesmos elementos em mos, a diretora Catherine Hardwicke se saiu com um singelo mas cativante romance no filme inaugural; e, com apenas eles ao seu dispor, David Slade abriu horizontes para a srie no terceiro episdio, infundindo-a com perigo e erotismo considerveis. Em suma: Amanhecer poderia ter resultado muito superior ao que se v, tivesse havido vontade para encenar a trama com alguma energia, escrever dilogos que algum pudesse enunciar com um mnimo de naturalidade e retocar efeitos malsucedidos. Neste momento,  provvel que esses defeitos sejam invisveis aos fs cegos de paixo. Em cinco ou dez anos, porm, eles talvez percebam que Condon e o Summit deram seu amor como certo e fizeram pouco dele. E isso, pense-se o que pensar de Crepsculo, no  certo nem honesto.
ISABELA BOSCOV


3. CINEMA  NOVO EM FOLHA
Em Curvas da Vida, Clint Eastwood faz o seu velho tipo do sujeito que no joga a toalha. No h como enjoar dele.

     Ainda mais ranzinza que o treinador de boxe Frankie Dunn de Menina de Ouro, e quase to antissocial quanto o aposentado Walt Kowalski de Gran Torino, o olheiro de beisebol Gus Lobel tem todas aquelas notas profundas de madeira envelhecida das safras mais recentes de Clint Eastwood: um homem to inflexvel e assertivo no exterior quanto eivado de dvidas e arrependimentos no seu ntimo, e algum que enfrenta o fantasma da finitude da nica maneira como sabe faz-lo  indo em frente, e trabalhando. Esperem sentados aqueles que acham que chegou a hora de Frankie, Walt e Gus (ou Eastwood) jogarem a toalha: s quando eles estiverem duros e frios algum vai conseguir arranc-la das mos deles. Gus, por exemplo, enfrenta dois problemas um bocado limitantes para um olheiro. Primeiro, est perdendo a viso; segundo, est perdendo o lugar no mundo. Em um jogo to direcionado pelas estatsticas de performance dos jogadores quanto o beisebol, sujeitos como ele, com o dom inato de memorizar nmeros e intuir deles avaliaes e estratgias, esto sendo inexoravelmente substitudos pelo computador. Gus, porm, recalcitra. Principal olheiro dos Atlanta Braves, insiste que nada pode tomar o lugar do instinto que depurou no correr de l se vo dcadas. E, desde o incio de Curvas da Vida (Trouble with the Curve, Estados Unidos, 2012), que estreia nesta sexta-feira, est claro que Gus ter sua chance de vencer: as surpresas no so o forte do filme dirigido por Robert Lorenz  a familiaridade  que o .
     Eastwood afirmou vrias vezes nos ltimos anos que se aposentara da interpretao. Para Lorenz, entretanto, que foi seu assistente ou produtor em mais de uma dezena de filmes e aqui assina o primeiro longa, abriu uma exceo. Gus, como outros personagens seus, tem uma filha com quem vive s turras. Mickey, interpretada pela indomvel Amy Adams,  uma advogada que est a um passo de se tornar scia da firma em que trabalha. Mas cede  splica de Pete (John Goodman), gerente dos Braves e velho amigo de seu pai, para acompanh-lo numa misso de recrutamento na Carolina do Norte: criada na arquibancada dos campos de beisebol, ela  igualmente fantica pelo esporte, e conhece suas estatsticas to a fundo quanto Gus. Poder, assim, discretamente suprir a viso que est faltando a ele.
     Seguem-se muitas cabeadas entre pai e filha, algumas intervenes afetuosas de Johnny (Justin Timberlake), um jogador que Gus recrutou tempos antes e agora pretende tornar-se locutor, e vrias revelaes prescientes do velho olheiro sobre as qualidades  ou a falta delas do jogador que ele e os outros grandes clubes foram observar. O qual, descobre Gus, tem graves ainda que sutis problemas para rebater bolas curvas  as quais, nas metforas esportivas americanas, significam tambm imprevistos ou coisas que enganam. No h nenhuma destas em Curvas da Vida: todas as suas reviravoltas podem ser avistadas a quilmetros de distncia. Mas, dado que o trajeto vai sendo percorrido na companhia agradabilssima de Eastwood, Amy, Timberlake e Goodman, a paisagem conhecida  a razo primeira para que se faa a viagem. 
ISABELA BOSCOV


4. LIVROS  BEBUM, SIM. MAS COM ESTILO
Um livro ensina a beber como Ernest Hemingway. Aprenda com moderao.
TNIA NOGUEIRA

     Entre os vrios feitos do americano Ernest Hemingway, pode-se citar o fato de ter entornado dezessete frozen daiquiris duplos em um nico dia. Cada daiquiri simples, alm suco de limo, suco de grapefruit, licor de marasquino e angustura, leva duas onas de rum. Para dezessete duplos, so necessrias 68 onas, ou 2 li-
tros de rum. Essa, pelo menos,  a histria contada pelo prprio escritor em cartas  sua quarta mulher, Mary, e ao amigo Harvey Breit, como tendo acontecido em um dia de 1942 no bar La Floritida, em Havana. Econmico na linguagem. Hemingway era exagerado em tudo mais  nas narrativas de suas aventuras tambm, segundo consta. Mas  fato que bebia quantidades homricas. H duas semanas, uma nota no caderno gastronomia do jornal The New York Times propunha: Como beber feito Hemingway, anunciando o lanamento do livro To Have and Have Another: a Hemingway Cocktail Companion (Penguin; 10,99 dlares na verso eletrnica, pela Amazon), de Philip Greene. Quem em s conscincia quer aprender a beber como um alcolatra que acabou seus dias matando-se com um tiro na boca? Pois em Havana, Veneza ou Paris no faltam peregrinos pagando caro para tomar o drinque favorito do escritor nos bares que ele frequentava.
     Hemingway no era meramente um bbado. Era um bbado de classe, que conhecia as bebidas a fundo e apreciava os seus rituais. E, mais do que qualquer outro grande autor, gostava de escrever sobre elas  porque sua obra  muito autobiogrfica, e porque estava sempre de copo na mo.  disso justamente que trata To Have and Have Another (em traduo livre, umas e ou tras). Junto a cada uma das mais de cinquenta receitas de drinques  alguns clssicos, outros criados pelo prprio Hemingway ou seus amigos , Greene apresenta trechos de romances, cartas e outros textos em que o escritor os descrevia com riqueza de detalhes. Em O Jardim do den, por exemplo, o protagonista David Bourne, um jovem escritor americano em viagem pela Europa com a mulher, pede ao garom uma garrafa de armagnac (um destilado de uva muito semelhante ao conhaque) e outra de gua gasosa Perrier. Greene aponta que Hemingway no aceitava outra gua. Nos anos 20, ningum que no fosse francs teria ouvido falar da gua Perrier, e s pessoas muito refinadas saberiam distinguir as qualidades de uma gua mineral. Hemingway sabia, constituindo assim o caso incomum de aficionado dos fluidos etlicos capaz de saborear tambm aqueles sem nenhum batismo. Afinal, est-se falando de um pau-dgua vivido e viajado, que ganhou o Nobel de Literatura e cultivava os prazeres sensuais com devoo de esprito.
     Escritores hedonistas,  sabido, no so propriamente uma raridade. Contudo, ningum se aprofundou como Hemingway na descrio e anlise da coquetelaria  talvez at pelo inegvel carter americano de sua obra, mesmo aquela ambientada no exterior. Os coquetis so uma cultura americana, e Greene lembra ao leitor que, durante os anos da Lei Seca, juntamente com escritores e artistas de toda sorte, os Estados Unidos exportaram vrios barmen, muitos dos quais viriam a criar drinques clssicos em outras paragens.
     Em To Have and Have Another v-se que Hemingway tinha drinques especficos para diferentes situaes. Quando saa para safris na frica, ele se munia de grandes estoques de gim e de um suco de limo processado chamado Roses Lime Juice Cordial. Com eles, preparava seu gimlet, um drinque cuja inveno  atribuda a Sir Thomas Gimlette, mdico da Marinha britnica, no fim do sculo XIX, para garantir que os marujos ingerissem vitamina C como preveno contra o escorbuto.
     Greene procura desvendar alguns dos mitos etlicos que cercam Hemingway. Segundo ele, o escritor nunca foi grande f do drinque cubano mojito (rum, acar e hortel). H uma receita no livro, mas o captulo que a acompanha tenta provar que so falsos os dizeres meu mojito, no La Bodeguita; meu daiquiri, no La Floridita que o escritor supostamente manuscreveu em um guardanapo at hoje exposto no La Bodeguiia, em Havana. H clssicos como bloody mary, cuba libre e dry martini, mas a maioria das receitas no consta do repertrio de grande parte dos barmen modernos, ou mixologistas. como gostam de ser chamados hoje. Para quem no se interessa pela obra de Hemingway, o livro vale pela originalidade dessas preparaes. So drinques de nomes pouco conhecidos, como death in the gulf stream (morte na Corrente do Golfo), uma mistura de genebra, suco de limo e angustura; el definitivo (o definitivo), de vodca, gim, tequila, rum, usque, suco de tomate e suco de limo: gamblers delight (deleite do apostador), com vermute e conhaque. Quase todos esses coquetis  em particular os que aparecem em obras mais tardias  vm com pouqussimo ou nenhum acar: diabtico, Hemingway o evitava nos ltimos anos de vida, apesar de continuar ingerindo lcool aos gales (o que obviamente  proibido para quem tem esse mal e extremamente desaconselhvel a qualquer ser humano).
     Havia disciplina nas bebedeiras de Hemingway, especialmente quando estava escrevendo um livro. Ele no bebia tarde da noite. E nunca (ou quase nunca) bebia antes do meio-dia, perodo em que costumava trabalhar. Voraz em tudo o que fazia, entregou-se com intensidade  pesca, barcos, caa, armas, causas polticas, mulheres, comida, viagens, aventuras de forma geral e literatura em especial. Foram escritos livros sobre Hemingway e cada um desses temas. Todos esses temas aparecem em sua obra. Mas, quase sempre, acompanhados de um drinque. 

OS MARTNIS E A CIVILIZAO
OS sanduches chegaram. Eu comi trs e bebi mais uns dois martnis. Nunca havia provado nada to fresco e lmpido. Eles me fizeram sentir civilizado. Eu havia exagerado no vinho tinto, no po, no queijo, no caf ruim e na grappa. Fiquei sentado no banco alto diante do mogno, do metal e dos espelhos e no pensei em nada. O barman me fez alguma pergunta. No fale sobre a guerra, eu disse. A guerra estava muito distante. Talvez nem houvesse uma guerra. No havia nenhuma guerra aqui. 
Trecho de Adeus s Armas (1929), de Ernest Hemingway


5. VEJA RECOMENDA
BLU-RAY
CELEBRATION DAY. LED ZEPPELJN (WARNER Music)
 O crtico ingls Nick Kent comparava as apresentaes do Led Zeppelin s invases do exrcito mongol de Gngis Khan: ambas as coisas eram brutais e no deixavam pedra sobre pedra. O grupo formado pelo guitarrista Jimmy Page, pelo vocalista Robert Plant, pelo baterista John Bonham e pelo baixista John Paul Jones foi a cara do rock pesado dos anos 70. A banda terminou em dezembro de 1980, trs meses depois da morte de Bonham, e desde ento recusou ofertas para voltar aos palcos. A nica exceo ocorreu em dezembro de 2007, quando o trio remanescente se uniu ao baterista Jason, filho de John Bonham, para um show em homenagem ao executivo da indstria fonogrfica Ahmet Ertegun (1923-2006). A apresentao virou um CD duplo, um DVD e um Blu-ray, lanados mundialmente nesta semana. Foi uma noite to especial que Page e Plant at tocaram Stairway to Heaven, cano que haviam retirado de seus repertrios na carreira-solo. Alm desse clssico, h um desfile de hinos, como Black Dog e Since Ive Been Loving You. Os msicos sexagenrios j no tm a fria mongol, mas surpreendem pela brutalidade com que subjugam e encantam a plateia.

DISCO
RED, TAYLOR SWIFT (UNIVERSAL)
 As botas e o chapelo ficaram pequenos para Taylor Swift. Revelao jovem da msica country americana (tinha 16 anos quando lanou seu disco de estreia, em 2006), ela aos poucos troca a sonoridade de Nashville por novos gneros e batidas danantes. Na turn que gerou o CD ao vivo World Tour Live: Speak Now, Taylor fez um dueto com a rapper Nicki Minaj e cantou I Want You Back, sucesso do Jackson 5. Em Red, ela flerta com o dubstep, uma nova vertente da msica eletrnica, na faixa I Knew You Were Trouble. The Other One e State of Grace lembram a new wave da dcada de 80. O country, no entanto, no ficou totalmente de fora. Ele se faz presente no banjo utilizado em boa parte das canes  em especial, na faixa que d ttulo ao disco e em Stay Stay Stay  e em algumas msicas tristonhas, que falam de relacionamentos desfeitos (e de pessoas que insistem em criticar a cantora). Mas Taylor atualiza esses temas, trazendo convidados alheios ao universo country. Gary Lightbody, do Snow Patrol, participa da belssima balada The Last Time, e o popstar Ed Sheeran aparece em
Everything Has Changed.

LIVRO
PRTICAS DA GESTO EMPRESARIAL DE ALTA PERFORMANCE BASEADA EM PESSOAS, DE JOAMEL BRUNO DE MELLO E MARLENE ORTEGA (ALADE/NOVA CULTURAL; 402 PGINAS; 49 REAIS)
 Joamel Bruno de Mello  um mdico com um p na administrao: foi professor de medicina na USP e participou da direo de empresas e instituies ligadas  sade. Psicloga e consultora de gesto e recursos humanos, Marlene Ortega foi pioneira na aplicao do ISO 9000, sistema de avaliao da eficincia de processos, em um hospital brasileiro. A experincia conjugada desses dois profissionais garante a clareza e a pertinncia deste manual, que desde j se destaca entre tantos livros dedicados  gesto empresarial. No  um livro que se limite apenas  rea de atuao dos autores: empresrios, administradores, gestores, diretores de qualquer setor de negcios vo encontrar aqui subsdios essenciais para a atividade corporativa. O livro trata, afinal, do recurso mais caro a qualquer profissional que ocupe posies de responsabilidade em sua empresa: o patrimnio humano. Encontram-se aqui orientaes tanto para a definio da tica empresarial quanto para a implantao de programas de melhoria contnua.

DVDs
SOUTH PARM: 13, 14 E 15 TEMPORADAS (LOGON; VENDA EXCLUSIVA PELO SITE SUBMARINO)
 A expresso politicamente incorreto banalizou-se.  empregada indiscriminadamente como sinnimo de grosseiro. Trey Parker e Matt Stone sabem,  verdade, ser grosseiros: h muita escatologia em South Park, desenho animado criado pela dupla em 1997. Mas eles representam a incorreo poltica em estado puro. Pedofilia e racismo, doenas e deficincias, celebridades e heris do ativismo chique: nada escapa do deboche cido da dupla. A partir de uma escola primria do Colorado, frequentada por crianas desbocadas, South Park faz um painel satrico da sociedade americana. Todas as quinze temporadas sero lanadas no Brasil em DVD, a comear pelas trs mais recentes.  uma boa nova sobretudo para quem deseja ver o programa com som original (na televiso paga, ele  exibido dublado, no canal VH1). S  uma pena que South Park tenha sido cerceado pela patrulha fundamentalista: dois episdios da  14 temporada no entraram no DVD por fazerem brincadeiras consideradas ofensivas ao profeta Maom.

O LTIMO GUARDA-COSTAS (LONDON BOULEVARD, INGLATERRA/ESTADOS UNIDOS, 2010. IMAGEM)
 Mitchel  um personagem clssico dos filmes de gangster: o sujeito que, tendo acertado suas contas com a Justia na priso, quer passar longe da velha vida. O que significa, claro, que j, j ele ter retornado a ela. Mitchel cai na rbita de um conhecido que trabalha como coletor de dvidas (Ben Chaplin, seboso como o papel pede) e, dela, para a rbita do chefo cujas dvidas esto sendo coletadas (Ray Winstone, sempre assustador). A essa altura, no  s por si que ele quer escapar de associaes assim insalubres:  tambm porque est completamente apaixonado por Charlotte, a estrela de cinema neurtica da qual se tornou guarda-costas. No admira que Mitchel esteja assim cado:  Keira Knightley quem faz Charlotte. E admira menos ainda que ela corresponda aos sentimentos dele:  Colin Farrell, que veste um terno italiano como poucos, quem faz o guarda-costas. Estreia na direo de William Monahan, roteirista de Os Infiltrados e Rede de Mentiras, este  um exemplar primeiro divertido e depois algo trgico, mas sempre envolvente, do gangster chic ingls.


6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Cinquenta Tons de Liberdade  E.L. James. INTRNSECA 
2. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA
3. Cinquenta Tons Mais Escuros  E.L. James. INTRNSECA
4. Toda Sua  Sylvia Day. PARALELA 
5.  Primeira Vista  Nicholas Sparks. ARQUEIRO 
6. Um Porto Seguro  Nicholas Sparks. NOVO CONCEITO 
7. A Travessia  William Young. ARQUEIRO
8. As Vantagens de Ser Invisvel  Stephen Chbosky. ROCCO
9. A Sombra da Serpente  Rick Riordan. INTRNSECA 
10.   A Escolha  Nicholas Sparks. NOVO CONCEITO 

NO FICO
1. Nada a Perder  Edir Macedo. PLANETA
2. A Queda  Diogo Mainardi. RECORD 
3. Dilogos Impossveis  Luis Fernando Verissimo. OBJETIVA
4. Marighella  O Guerreiro que Incentiou o Mundo.  Mrio Magalhes. COMPANHIA DAS LETRAS
5. Carcereiros  Drauzio Varella. COMPANHIA DAS LETRAS 
6. Viajante Chic!  Gloria Kalil. AGIR
7. Um Lugar na Janela  Martha Medeiros. P&PM
8. Uma Breve Histria do Cristianismo  Geoffrey Blainey. FUNDAMENTO 
9. Coraes Descontrolados  Ana Beatriz Barbosa Silva. FONTANAR 
10. O Livro da Psicologia  Nigel Benson. GLOBO

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Eu No Consigo Emagrecer  Pierre Dukan. BEST SELLER 
2. Agapinho  gape para Crianas  Padre Marcelo Rossi. GLOBO
3. Acima de Tudo o Amor  Henrique Prata. GENTE
4. Quem Pensa Enriquece  James Hunter. SEXTANTE
5. Desperte o Milionrio que H em Voc  Carlos Wizard Marins. GENTE 
6. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL 
7. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE 
8. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE 
9. Encantadores de Vidas  Eduardo Moreira. RECORD 
10. Cinquenta Tons de Prazer. Marisa Bennett. BEST SELLER


7. J.R. GUZZO  TUDO EM JAVANS
     O artigo 13 da Constituio em vigor determina que a Lngua portuguesa  o idioma oficial da Repblica Federativa do Brasil.  um mandamento de utilidade duvidosa, considerando-se que todo mundo sempre soube que aqui se fala o portugus  at 1988, alis, o Brasil no tinha nenhum idioma oficial estabelecido em lei, e jamais se notou problema algum por causa disso durante os 500 anos anteriores. Tudo bem: numa Constituio que tem 250 artigos e mais uma prodigiosa quantidade de incisos  s o artigo 5 tem 78 , umas palavras a mais ou a menos no vo machucar ningum. Mas, j que nossa lei mais importante determina que o portugus  a lngua oficial do pas, obrigatria nos atos pblicos, no ensino, nas placas de trnsito e assim por diante, imagina-se que ela deveria ser falada e escrita corretamente, ou pelo menos de maneira compreensvel, por todos os que tenham a responsabilidade de resolver alguma coisa. Eis aqui, porm, mais uma questo na qual se faz, na vida prtica, justamente o contrrio do que a lei manda fazer.
     O curioso  que esse tipo de postura comece justamente onde menos deveria comear  nas nossas altas cortes de Justia.  o caso, como milhes de brasileiros esto sentindo justamente agora, e com direito a transmisso ao vivo, da linguagem utilizada pelos ministros do Supremo Tribunal Federal no julgamento do mensalo. Nunca, em toda a sua histria, o STF viveu um momento de maior prestgio. Nunca tantos brasileiros viram com os prprios olhos o tribunal em ao. Nunca ele foi to aplaudido por mostrar-se independente, capaz de condenar gente poderosa na mquina do governo e provar que no se assusta com ameaas ao tomar suas decises. Deveria ser uma oportunidade de ouro, assim, para a populao entender como a Justia pode de fato funcionar no Brasil. A chance foi desperdiada. O STF realizou seu trabalho essencial, sem dvida  mas os ministros fizeram tanta questo de falar difcil durante o julgamento que acabaram se tornando perfeitamente incompreensveis para quem os via e ouvia.
     Os dez ministros do STF sabem muito bem que trs quartos da populao brasileira no so capazes de entender direito o que leem  que esperana poderiam ter, ento, de que algum conseguisse entender o que estavam dizendo? Falou-se, no julgamento, em vrtice axiolgico, crivo probatrio e exordial acusatria. Ouviram-se as palavras subsuno, vnia e colendo. Apareceu o verbo infirmar. Em certo momento, um dos ministros falou em egrgio sodalcio. Que raio de lngua seria essa? Latim no , mesmo porque os ministros no sabem falar latim. No  nenhum idioma estrangeiro que se conhea. Tambm no  portugus. Os sons lembram vagamente a lngua falada no Brasil, e as palavras utilizadas esto nos dicionrios do nosso idioma oficial. Mas, se nem o 1% mais instrudo da populao nacional entende algo desse patu, o resultado prtico  que o julgamento mais importante da histria do STF acabou sendo feito numa linguagem desconhecida. Daria na mesma, no fundo, se tivessem falado em javans  tanto que foi indispensvel, para os meios de comunicao, armar uma espcie de servio de traduo simultnea para as pessoas ficarem sabendo se o ru, afinal, estava sendo condenado ou absolvido.
     O portugus tem cerca de 200.000 palavras  mais do que o suficiente, portanto, para Suas Excelncias encontrarem termos de compreenso mais fcil. Decidiram fazer justo o contrrio: no perderam uma nica oportunidade de substituir toda e qualquer palavra clara por outra que ningum entende. Para que isso? Uma sentena no fica mais justa porque  escrita nessa linguagem torturada.  bvio que num congresso de fsica molecular, cirurgia neurolgica ou prospeco de petrleo os participantes tm de usar termos tcnicos em sua conversa; so at obrigados a isso, para trabalhar com eficincia. Juristas podem fazer exatamente o mesmo, nos seus encontros profissionais. Mas magistrados exercem uma funo pblica  e isso exige que falem para o pblico, e no apenas para si mesmos. Um dos mais antigos princpios do direito universal determina que ningum pode alegar, em sua defesa, que desconhece a lei. Mas para conhecer a lei  indispensvel que o cidado entenda o que est escrito nela
 e nossos juristas, com o seu linguajar, fazem o possvel para torn-la incompreensvel. Imaginam, com isso, que esto exibindo sua sabedoria para o mundo. Esto apenas mostrando sua recusa, ou incapacidade, de se expressar no idioma oficial do pas.


